sexta-feira, 9 de julho de 2021

Sobre facilitações e diversões

    Recentemente, participando de um workshop sobre "melhores reuniões", surgiu uma interessante discussão. O material oficial do workshop e, claro, a pessoa facilitadora mostraram as vantagens de utilizar dinâmicas quebra-gelo no início das reuniões para melhorar o clima e trazer um pouco de diversão.

   Em determinado momento, foi proposta uma dinâmica em pequenos grupos para que discutíssemos formas de tornar nossas reuniões mais divertidas. E aí surgiu a reflexão que me leva a escrever esta publicação: "Eu não quero que a reunião seja divertida, quero que ela termine logo para eu ir pra casa me divertir com outra coisa." — Disse uma participante. Imediatamente eu pensei: "Temos um 'alto D' no grupo"

   Mais tarde, — bem mais tarde — quando meu filho me acordou às 4 da manhã dizendo que um rinoceronte não queria deixá-lo dormir, eu lembrei desta situação e percebi o quanto havia sido idiota por pensar em perfis comportamentais DISC em vez de pensar de modo sistêmico. — Será que aquela pessoa não queria reuniões divertidas ou o sistema no qual ela está inserida não é amigável a tais coisas?

   Me recordei de uma situação exemplo levantada por ela num outro momento, quando falou sobre uma reunião para decidir se uma determinada ação proposta por um engenheiro poderia ser realizada ou se  violaria a legislação. — Estamos falando de Engenheiros e Juristas!

   Aí eu te pergunto: Numa reunião entre juristas para decidir sobre a legalidade de uma proposta feita por engenheiros, você espera que sejam realizadas dinâmicas de quebra-gelo e diversão? — Claro que não! O sistema não permite. — E não é preconceito nem "coisa de velho". Este tipo de reunião não é compatível com aquele tipo de prática, e explicarei o motivo de eu acreditar nisso.

   Dinâmicas e jogos de grupo, como os citados anteriormente, tem por objetivo fortalecer a rede de conexões, melhorar o fluxo das comunicações pelos diversos canais e estimular a criatividade dos integrantes do grupo. Todas essas coisas são fundamentais para atividades criativas e indutoras de inovação. São excelentes quando você busca práticas emergentes, novas soluções, ideias fora da caixa... soluções para problemas complexos.

   Discussões acerca da legalidade de algo são o oposto disso. Você não quer que seus advogados deem uma nova interpretação ao texto da lei. Nem que eles criem uma nova forma de enquadrar práticas na legislação. — Exceto casos bem específicos — O que se espera dessa situação é que os especialistas decidam, dentre as boas práticas, qual melhor se adequa ao seu caso. Você não quer novidades, você quer segurança. Seu problema não é complexo, é complicado.

   Aqueles que conhecem o Cynefin framework já são capazes de perceber a incompatibilidade pelas palavras que destaquei. O problema (a reunião) está no domínio do complicado, enquanto a solução (as dinâmicas) no domínio do complexo. Quando o binômio problema x solução está em domínios diferentes, temos um enorme sinal de alerta: Até pode dar certo, mas se der errado o efeito será catastrófico. — Neste caso, uma falha põe em risco a continuidade de empregos, carreiras e até mesmo da organização. — Este não é um ambiente seguro para experimentação.

   E não podemos esquecer da possibilidade de os participantes da reunião acharem que você está louco por propor diversão numa hora dessas. — Não que engenheiras e juristas não possam se divertir em equipe. Elas (as pessoas) não apenas podem, como devem ter momentos de alegria e descontração. Mas há situações propícias a isso e situações onde é melhor "manter o decoro". Todas essas dinâmicas e integrações devem ser feitas no momento adequado.

   Não há dúvidas de que as práticas disseminadas no workshop são ótimas, mas não para toda e qualquer reunião.

   Enfim, antes de aplicarmos as "melhores práticas" que "todo mundo" usa, precisamos verificar se estamos no mesmo contexto que "todo mundo". Quando falamos de Management 3.0, Agilidade e tudo mais, estamos falando de soluções para problemas complexos; não para complicados, nem para problemas claros. Quase ninguém faz, ou não deveria fazer, Design Thinking para trocar lâmpada — mas deveria fazer para inventar um novo tipo de lâmpada. — Quase ninguém quer se submeter a uma cirurgia inovadora e experimental quando há um procedimento simples e padronizado para o seu problema de saúde — mas talvez queira num caso de doença sem cura conhecida. 

   Resumindo: A prática deve ser adotada conforme o contexto.

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