terça-feira, 27 de outubro de 2020

A fábula do bacon com ovos

 

   Conheço poucas coisas que gerem tantos mal-entendidos sobre agilidade quanto essa famosa fábula. A ideia de intensificar o significado do comprometimento é ótima, mas a visão passada não apenas não corresponde à realidade como ainda contraria alguns princípios dos times ágeis.

   Para quem não conhece, ou não se lembra, a fábula do bacon com ovos (em uma de suas várias versões) narra a história da criação de um restaurante que teria como prato principal: Bacon com Ovos. Os proprietários seriam um porco e uma galinha.

   O porco acaba entendendo que a parceria não daria certo porque ele estaria comprometido (dando a própria vida para produzir o bacon) enquanto a galinha estaria apenas envolvida (simplesmente pondo ovos).

   O grande problema gerado por essa fábula é que muitas pessoas levam o comprometimento do porco ao pé-da-letra e acham que trabalhar num time ágil significa dedicar toda a sua vida ao time.

   Na prática, se o porco desse a própria vida para produzir o bacon, o restaurante fecharia, visto que perdeu seu fundador e fornecedor de matéria-prima no primeiro dia de funcionamento.

   A cada dia a galinha precisaria encontrar um novo sócio disposto a morrer por um negócio do qual não tiraria nenhum proveito. O porco nem sequer saberia se os clientes gostaram do prato servido, nem receberia nenhum lucro; estaria morto antes da entrega.

   Quando falamos em times ágeis, pensamos em times preocupados com a satisfação contínua do cliente ao longo das iterações e isso requer que os membros estejam vivos.

   As práticas de gestão de pessoas aplicadas a times ágeis partem da valorização e do respeito às pessoas. Pedir que alguém se sacrifique por uma entrega, definitivamente, não é uma forma de valorizar nem de demonstrar respeito.

   O comprometimento de uma pessoa com o time inclui o comprometimento com sua própria integridade física e mental.

   Outra versão desta fábula narra que um fazendeiro determinou a seus animais, uma galinha e um porco, que preparassem, a cada dia, um saboroso e diferenciado café da manhã. Caso falhassem, o café seria Bacon com Ovos.

   O porco se empenha e se esforça ao máximo para providenciar o café da manhã que seu proprietário pediu, enquanto a galinha faz “corpo mole” e apenas observa o porco trabalhar.

   No final da fábula, o porco não consegue entregar uma refeição satisfatória e o fazendeiro ordena que seus empregados matem o porco para fazer bacon e peguem os ovos da galinha.

   Isso também não retrata nenhuma realidade de times ágeis, nem de times tradicionais. Retrata apenas o ciclo de vida da má gestão, que termina com a punição dos inocentes e a promoção dos não envolvidos.

   E eu vejo “agilistas” perguntando a seus times se são porcos ou galinhas; se estão comprometidos ou envolvidos... sem se dar conta de que esta ideia de dar a vida pelo projeto/produto é altamente tóxica e prejudicial. Sem perceber que este “comprometimento” viola os princípios da boa gestão de pessoas.

   Não estimule seu Dev Team a morrer, estimule-o a permanecer vivo e saudável. Pessoas doentes e exaustas não entregam valor, pessoas saudáveis e felizes produzem mais e melhor.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Você desenvolve Projetos ou Produtos?

   Lendo o artigo Why Agile Transformation sometimes fail da Magdalena Firlit, especialmente no tópico Project-oriented organization (instead of a product), lembrei de uma situação ocorrida comigo há alguns anos.

   Eu gerenciava um projeto de desenvolvimento de um software para apoio ao Centro de Controle Operacional de um cliente. O CCO era uma sala onde ficavam dezenas de operadores e dezenas de computadores, monitores de vídeo, TVs e painéis, de onde eram comandadas operações da empresa.

   Naquele projeto nós não utilizávamos MVPs, mas a sua versão "raiz", conhecida como PoC (Prova de Conceito — sigla em inglês). E, ao final de cada PoC, realizávamos uma reunião de avaliação e definição da próxima fase. Eis que, numa destas reuniões, um analista percebe que mais de 80% do trabalho realizado pelas dezenas de operadores era mecânico e automatizável por software.

   Imediatamente chamei o Diretor para a reunião e o analista lhe deu a notícia:

_ Conseguimos uma solução que vai acabar com o CCO do cliente!

   O Diretor ficou vermelho...

_ Ele pode ficar só com 20% daquela estrutura toda. Aquilo é tudo desperdício de dinheiro! 80% do trabalho deles o nosso sistema vai fazer. Se ele quiser, nem precisa mais ter um CCO.

   O Diretor respirou fundo e, após se recuperar da taquicardia, respondeu:

_ Se é isso que você pensa, e ninguém aqui se manifestou contra, vamos encerrar esse projeto agora mesmo, porque vocês estão jogando meu dinheiro fora. Esse projeto tem um objetivo só: implantar o CCO do cliente do jeito que ele imaginou. E eu não vejo ninguém aqui defendendo isso, que é o mais importante.

   O Diretor enxergou aquele insight como uma ofensa aos objetivos do projeto, sem perceber que aquilo seria o grande diferencial do produto. Será que o cliente não gostaria de saber que poderia reduzir a estrutura planejada em 80% e obter o mesmo resultado? Nunca saberemos a resposta.

   Desta forma, a limitação de escopo do projeto matou o empirismo, a criação, a disrupção, a inovação, o time e o próprio projeto. Sei que 4 dos 7 membros da equipe original do projeto (incluindo eu e aquele analista) saíram da empresa nos meses seguintes e, pelo que ouvi falar, o projeto foi cancelado.

Scrum - You're doing it the right way! Or... maybe... not at all

     Once upon a time, a long time ago, in a galaxy far, far away, there was a human called John Goodsense. John was a senior Scrum Master, ...